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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Professor conceiçoense da UFPB aborda sucesso e fracasso econômico

O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Erik Figueiredo, aborda em novo texto, sucesso e fracasso econômico. 

O artigo semanal é uma parceria do Departamento de Economia da UFPB com o Grupo WSCOM.

Segundo Erik, "pesquisadores como o prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, destacam que a não percepção do papel do esforço no resultado econômico é algo comum em sociedades com elevada desigualdade social".

Confira o artigo na íntegra:


Esforço e responsabilidade como determinantes do sucesso e do fracasso econômico

Por Erik Figueiredo

Em meados da década de 1960, Milton Friedman publicou um famoso ensaio sobre a aplicação do método positivista em economia (The Methodology of Positive Economics, In: Essays In Positive Economics, Chicago: Univ. of Chicago Press, pp. 3-16, 1966). Sua principal conclusão foi que a economia se tornaria um ciência fincada sobre a lógica positivista, onde os modelos teóricos forneceriam hipóteses testáveis a partir da observação empírica. Usando as palavras do escritor norte-americano Robert Anson Heinlein (1907-1988): “If you've got the truth you can demonstrate it. Talking doesn't prove it.” Em outras palavras, se a sua hipótese é verdadeira, você poderá demonstrá-la; argumentar usando apenas palavras, não é uma prova.

Contudo, mais de 50 anos depois da publicação do texto de Friedman, algumas áreas da ciência social aplicada continuam a desprezar o princípio básico da ciência: toda hipótese deve ser passível de ser refutada. Dois exemplos ilustram bem o meu ponto de vista. Contestações relacionadas à discriminação de gênero no mercado de trabalho foram banidas da academia. Os que ousam apontar explicações alternativas para a diferença salarial, via escolhas ocupacionais, por exemplo, são logo rotulados com algum “ismo”, e devidamente fichados na lista negra da patrulha do politicamente correto. Outro área proibida é a da efetividade/ eficiência das cotas raciais. Em resumo, aparentemente esses temas já atingiram a plenitude da verdade absoluta.

Essa patrulha velada, no entanto, não é a única censura presente no debate em torno das teorias de distribuição de renda. Inconscientemente, a academia baniu as discussões em torno da responsabilidade e do esforço no resultado econômico. Em suma, ninguém prospera por mérito, nem fracassa por demérito. O sucesso econômico é, quase sempre, tachado como fruto de alguma ilegalidade e exploração alheia. A riqueza é motivo de vergonha. Do outro lado, o fracasso é tratado como o resultado de uma conjunção de forças que nada têm a ver com as ações do indivíduo. Ou seja, ninguém fracassa por incompetência e sim por falta de oportunidades.

Infelizmente, essa visão distorcida não é um privilégio dos acadêmicos. Uma parcela expressiva da população brasileira é incapaz de enxergar a desigualdade salarial como fruto do mérito. A comprovação disso pode ser observada em diversas pesquisas realizadas pelo LatinoBarometro. Em uma de suas perguntas, o survey cria o seguinte cenário:

"Dois indivíduos ocupam o mesmo cargo, possuindo a mesma qualificação. Contudo, um deles é mais eficiente na execução da sua tarefa e por isso recebe um maior salário. Diante disso, questiona-se: essa diferença salarial é justa?"

Para 52% dos brasileiros essa diferença não é justa. Ou seja, não importa sua dedicação, esforço e eficiência. O que vale são os cargos, aparências e funções.

Contudo, há uma explicação para isso. Pesquisadores como o prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, destacam que a não percepção do papel do esforço no resultado econômico é algo comum em sociedades com elevada desigualdade social. Essa característica possui dois efeitos deletérios para o desenvolvimento desses países: i) o baixo crescimento, pois, a não valorização do esforço conduz a baixa produtividade e; ii) a divisão social entre os que superam suas dificuldades e vencem - sendo posteriormente taxados de desonestos e exploradores - e aqueles que sucumbem diante de suas dificuldades e, incapazes de enxergar as suas limitações e escolhas equivocadas, preferem jogar o culpa na sociedade cruel e injusta.

O impacto da percepção equivocada sobre o esforço nos indicadores de desenvolvimento são debatidos pelos professores Alberto Alesina e George Angeletos (Fairness and Redistribution, American Economic Review, 95, 2005). Já os temas relacionados a divisão social e ao impacto da cultura na economia já foram tratados por mim nessa coluna: https://www.wscom.com.br/noticias/brasil/professor+da+ufpb+comenta+o+impacto+da+cultura+brasileira+sobre+a+economia-216779.

Diante disso, faz-se necessário destacar as seguintes recomendações: ao observar um caso de sucesso econômico fruto do esforço, bata palmas. Procure descobrir quais foram as escolhas e o caminho percorrido pelo indivíduo em sua trajetória. Da mesma forma, conteste aqueles que habitam a parte inferior da distribuição da renda. Busque entender o porquê da não superação da pobreza. O Brasil ainda não é a terra das oportunidades, mas para trilhar o caminho do desenvolvimento nós precisamos entender os mecanismos que podem nos conduzir ao sucesso ou ao fracasso.


Wscom

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