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18 março 2021

'É aquela doença, não é?': A história por trás da 1ª morte confirmada por Covid-19, na Paraíba

Alane Amanda de Oliveira Silva tinha 30 anos de idade em março de 2020. Há mais de um ano, convivia em união estável com Danyllo Figueiredo de Andrade, de 36. Ambos eram de Patos, município do Sertão da Paraíba. Ela trabalhava numa faculdade particular da cidade, ele era um conhecido empresário, dono de uma rede de farmácias. Eram felizes. Gostavam de sair, de passear, de se divertir na companhia um do outro. Tinham engatado um namoro em 2013 e, naquela altura, já morando juntos na mesma casa, viviam os momentos mais felizes da vida de ambos. Até que a pandemia de Covid-19 chegou à Paraíba, exatamente um ano atrás, em 18 de março, quando o primeiro caso foi oficialmente confirmado no estado. Não tardou, tudo aquilo seria interrompido de repente.

Danyllo estava acima do peso, era diabético, possuía asma. Apesar de ter apenas 36 anos, tinha comorbidades. Estava dentro do grupo de riscos. E num período de protocolos médicos não tão bem definidos, é difícil ter certeza em que momento ele contraiu a doença. Sabe-se, contudo, que os primeiros sintomas surgiram por volta do dia 21. E, apenas dez dias depois, em 31 de março, ele se tornava o primeiro óbito provocado pelo novo coronavírus confirmado em território paraibano.

Amanda e Danyllo adoravam festas, mas tudo isso acabaria com a pandemia de Covid-19 — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

Um ano depois, Amanda ainda tenta entender o que aconteceu. Ainda tenta conviver com a saudade e com a ausência de quem tanto amou:

“Ele nunca vai sair do meu coração. Foi a primeira pessoa que eu amei. Um grande amor que eu tive e que vai sempre seguir perto de mim”, declara-se Amanda de Oliveira.

Ela explica que Danyllo era um homem vaidoso, de bem com a vida, que adorava esportes e andar de moto. Participava de um motoclube e se sentia bem ao viajar com os amigos nessas motocicletas. “Ele gostava de adrenalina. Adorava viver a vida intensamente”, comenta.

O motoclube era uma das grandes paixões de Danyllo, o primeiro óbito por Covid-19 na Paraíba — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

O motoclube era uma das grandes paixões de Danyllo, o primeiro óbito por Covid-19 na Paraíba — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

Os dois se conheceram quando ela estudava direito, curso que Amanda se formaria tempos depois e em que hoje possui pós-graduação. O namoro avançou rápido e a relação foi ficando cada vez mais séria. Viviam grudados um no outro, o que só ajudou a tornar a separação abrupta e permanente ainda mais difícil. Foi um processo que, na verdade, ainda não acabou. O curso segue dia após dia.

“Aqueles foram os piores dias da minha vida. A gente sofre muito. A dor é imensa. Mas com o tempo a gente consegue tirar a dor que machuca e deixa apenas a saudade”, ensina, dizendo em seguida que tudo ficou um pouco mais fácil quando ela, enfim, conseguiu entender que, apesar da ausência física, as lembranças são para sempre.

Mesmo assim, Amanda diz que é capaz de lembrar em detalhes assustadoramente reais tudo o que eles viveram naqueles dez dias de março de 2020.

A cronologia de uma tragédia

Hoje em dia, um ano depois, a pandemia de coronavírus é uma assustadora realidade, que já matou mais de cinco mil paraibanos e que infectou quase 300 mil pessoas em todos os 223 municípios do estado. Apenas um ano atrás, contudo, a realidade era bem diferente. No Alto Sertão paraibano, poucas pessoas acreditavam que a doença seria tão devastadora.

“Havia uma crença de que era uma doença que começou lá longe, do outro lado do mundo, e que não chegaria em Patos”, relembra Amanda.

Mas, de repente, a Secretaria de Estado da Saúde confirmava o primeiro caso local. Amanda, assim, rapidamente entrou em home office. Isolou-se em casa. Danyllo, por sua vez, precisava circular entre as farmácias que possuía para administrar os negócios. Tomava cuidado, tentava se higienizar, mas em 21 de março começou a sentir febre e dores de cabeça e no corpo. Ainda assim, ninguém acreditava que poderia ser Covid-19.

Danyllo a poucos dias de morrer: segundo Amanda, ele já estava doente e não sabia — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

Danyllo, então, procurou uma médica. Ele foi atendido e a profissional receitou uma medicação. Ele tomava, melhorava, ia trabalhar. Ao fim do dia, voltava com todos os sintomas de novo. Os problemas não davam sinais de que iam passar.

“Estávamos bem e de repente ele começou a ficar doentinho”, relembra com afeto. “Foi tudo muito repentino. Ainda não tínhamos a menor noção do que seria”.

Nos dias seguintes, Amanda cada vez mais tentava convencê-lo a se proteger mais, a desacelerar, a tentar se cuidar com mais atenção. Ele resistia. Não acreditava que seria algo tão grave. Seguia em frente. Isso, até o quinto dia, quando, no final da manhã, assumiu. Estava exausto, com sintomas cada vez mais fortes. Pediu para ir ao hospital.

 “Vesti uma roupa e, quando cheguei na sala, ele estava encostado no sofá, ofegante. Perguntei: ‘Você está puxando o ar, é?’. Ele me abraçou e começou a chorar, com medo”, resgata Amanda.

Era quarta-feira, 25 de março de 2020. Amanda levou o companheiro para o Hospital Regional de Patos. Chegaram ao local por volta de 13h30. Na triagem, ele estava sangrando pelo nariz. O hospital não quis interná-lo porque acreditou ser outro problema e a unidade hospitalar não dispunha dos equipamentos necessários para os exames. Uma hora depois, eles adentravam no Hospital São Francisco, da rede privada.

A falta de protocolo definido era um problema evidente. Amanda relembra que as primeiras suspeitas foram de câncer no pulmão. Mas, para ela, aquilo não parecia fazer muito sentido. Ela e os irmãos de Danyllo entraram em contato com médicos amigos em João Pessoa. Mostraram uma foto de uma radiografia do pulmão dele. Rapidamente, mandaram que fosse transferido para a capital do estado.

Isso só aconteceu no dia seguinte. Saíram de Patos às 9h do dia 26 em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Amanda o acompanhava. Danyllo ia deitado numa maca, consciente, ainda que com dores, febre e muito mal-estar, perguntando a cada momento se eles já estavam perto do destino final.

O desespero, no traslado de ambulância, era cada vez maior:

“Teve uma hora que ele olhou para mim e me perguntou: ‘É aquela doença, não é?’. Eu tentei tranquilizá-lo. Disse que não era, que ia ficar tudo bem. Mas era”, prossegue Amanda.

Patos e João Pessoa estão separados por 315km pela BR-230. É uma viagem que dura normalmente 4h30. Mas, no desconforto de uma ambulância, parando de tempos em tempos para trocar o cilindro de oxigênio, com as dores do marido, a viagem foi muito mais longa do que se supunha. E, para piorar, quando eles já estavam na capital paraibana, Danyllo começou a desfalecer.

Aquele momento é um instante que estará para sempre na memória de Amanda. Ela conta que chegaram ao Hospital Universitário Lauro Wanderley e rapidamente o colocaram numa maca. Ela o seguia de perto. Seria a última vez que o veria com vida.

“Ele tinha uns olhos verdes bem bonitos. Naquele instante, olhou para mim com olhos expressivos. Um olhar de quem pede para que não seja abandonado. Eu ficava repetindo para que ele fosse forte e corajoso, mas a verdade é que eu já não sei se ele conseguia me ouvir”.

A foto preferida de Amanda com Danyllo:

A foto preferida de Amanda com Danyllo: "Ainda hoje lembro dos seus olhos verdes" — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

Danyllo demorou pouco no HU de João Pessoa. Exames demonstraram que ele já estava com 80% dos pulmões comprometidos. E mesmo com exames ainda não conclusivos, já começaram a tratar como sendo um caso de Covid-19. Ele precisou ser entubado. E, à noite, transferido para o Hospital Clementino Fraga, referência do estado para doenças infecciosas.

A nova transferência foi a primeira sob protocolos realmente corretos. Mas isso teve um lado devastador para Amanda, já que ela não estava preparada para a cena. Equipes totalmente protegidas, com equipamentos que cobriam todo o corpo dos profissionais. Movimentos rápidos e por um percurso de total isolamento, sem que fosse possível ninguém chegar perto. Às 19h30, ele entrava na unidade hospitalar de onde não sairia mais vivo. Por uma entrada traseira, longe dos olhos dos familiares.

 

Hospital Clementino Fraga, em João Pessoa, é referência em doenças contagiosas: foi onde Danyllo entrou e não saiu mais com vida — Foto: Kleide Teixeira / Jornal da Paraíba

Só várias horas depois, tarde da noite, a equipe médica do hospital confirmava que a situação era muito grave e determinava que Amanda e os familiares de Danyllo deveriam deixar o hospital e também eles ficarem em isolamento, já que poderiam estar contaminados. Danyllo resistiu por cinco dias. No dia 31 de março, Amanda receberia o telefonema definitivo.

 A vida depois da morte

 

Amanda não dormiu naquela noite e só sabia rezar e chorar. Isolou-se ainda em João Pessoa e, no dia seguinte, voltou para Patos. As notícias sobre as condições de saúde de Danyllo chegavam pelo telefone celular, quando os boletins médicos eram divulgados. Visitas de qualquer tipo estavam proibidas e, ela, obrigada a respeitar a quarentena. Foi ainda durante a primeira metade da quarentena compulsória de 14 dias, por sinal, que ela recebeu a notícia da morte de seu grande amor.

“A doença, infelizmente, venceu. Quando eu recebi a notícia, foi um choque terrível. Fui medicada, dormi, só acordei no dia seguinte. Não houve velório, o cortejo fúnebre não entrou a cidade e apenas a contornou até chegar ao cemitério. O enterro foi rápido e com pouquíssimas pessoas”, relembra.

De volta ao apartamento e ao isolamento após o enterro, estava novamente só. “Sofri sozinha. Tive que sentir a dor sozinha, tive que me fortalecer sozinha. Tive que amadurecer, levantar e me erguer sozinha. Algumas amigas me ajudavam como dava, mas por telefone. No mais, aqueles dias eu enfrentei sozinha”.

Por causa da pandemia e do isolamento social, Amanda viveu quase todo o seu luto sozinha — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

Por causa da pandemia e do isolamento social, Amanda viveu quase todo o seu luto sozinha — Foto: Alane Amanda de Oliveira Silva/Arquivo Pessoal

E, com o tempo, ela perceberia que as marcas provocadas por Danyllo ter sido o primeiro óbito da Paraíba proveniente da Covid-19 não se apagaria tão cedo. Sofreu preconceitos, violências, outras formas de isolamento.

“As pessoas me viam como se fosse um bicho. Tinham medo de mim. De pegar a doença. De se contaminar. Por causa de Danyllo ter sido o primeiro caso”, lamenta.

Um ano depois, ela já está um pouco melhor. Diz que a grande mudança foi quando percebeu que a presença espiritual dele seria para sempre. Isso lhe ajudou a começar a superar. “Ele era meu pilar. Era tudo para mim. Era a minha base. E a gente nunca está preparado para perder isso. A falta que Danyllo me faz é absurda. É um amor que não volta, mas que sempre vai existir. Estará no meu coração para sempre”, prossegue, emocionada.

Ao mesmo tempo, exalta a sua própria força para seguir em frente:

“Após um ano, ainda olho para trás e penso o quando eu amadureci. O quanto isso tudo me fez forte. Ao mesmo tempo, eu sei que a todo o momento ele esteve comigo, me dando forças e coragem para eu seguir em frente. É um anjo que eu ganhei para sempre”, finaliza Amanda.

 
Fonte: G1

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