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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Somos todos neuróticos? Reconheça os sintomas

Somos todos neuróticos? Resposta rápida à questão: não, não somos. Mas talvez você não se sinta melhor com as outras opções: para os psicanalistas, quem não é neurótico pode ser perverso ou psicótico – as três configurações psíquicas propostas por Freud.

O termo “neurose”, que saiu dos consultórios psiquiátricos há algumas décadas, continua consagrado nos divãs e no uso popular: quem não conhece (ou se considera) alguém cheio de “neuras”?
O fato é que todos sofrem e precisam se virar para lidar com as próprias angústias, tanto as constituintes, relacionadas à infância, à história de vida e ao simples fato de ser humano, como as agravadas pelos tempos em que vivemos. Aliás, a ansiedade e a dependência da opinião alheia, tão características da neurose, podem ficar bem claras quando se está com um celular na mão sofrendo porque a mensagem foi visualizada e não respondida ou o textão no Facebook não teve muitas curtidas. Mas o que, afinal, se entende por neurose?

“Um neurótico é aquele que só consegue se relacionar a partir de certos pressupostos equívocos como: o que desejo é aquilo que imagino que o outro está me pedindo. Ou seja, identifico o desejo do outro com o meu”, explica Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Assim, estamos falando de uma maneira de encarar as relações que passa por fantasia, imaginação e insegurança – mas não alucinações, que já são do campo da psicose.

A neurose costuma ser tida socialmente como o jeito mais aceito de sofrer, como se fosse um distúrbio de comportamento “mais leve” – nos filmes e seriados, os loucos são os psicóticos e perversos, com seu sadismo e suas visões. Mas é preciso cuidado ao classificar a neurose como o jeito “normal” de lidar com a dor. “São muitas as formas de neurose e de possíveis relações com os sintomas. Em alguns casos, esses podem ser até piores e mais intensos do que os da psicose ou da perversão. Ao normalizá-la, transformamos em aceitável uma forma de sofrimento. Mais produtivo é encará-la e cuidar dela”, afirma Dunker. Como musicou Caetano Veloso, “de perto, ninguém é normal”. Olhar para as próprias “anormalidades”, portanto, é o começo do caminho para transformá-las e alcançar uma vida mais plena.

Não é fácil, porém. O neurótico tem muita dificuldade de assumir seus desejos, porta-se como se vivesse para os outros. Dependente, com frequência se sente abandonado, questionando se o outro não deveria amá-lo mais, se estão implicando com ele. Quanto maior a necessidade de aprovação, mais neurótico. Ele também se angustia com o próprio comportamento, questiona-se onde errou e martiriza-se com a culpa. “Há sofrimentos produtivos e improdutivos. O neurótico sofre improdutivamente, de um jeito excessivamente orientado para fora, que não o leva a lugar algum. Ele quer ser tudo para o outro e espera ser admirado por isso”, continua Dunker. “A neurose é a maneira como cada um se enrola na tentativa de satisfazer o desejo“, define a psicanalista Dominique Fingermann, de São Paulo. Em alguns momentos da vida, podemos “nos enrolar” mais. “Então o conflito entre obter minha satisfação e dar satisfação ao outro vai tomando proporções que, pouco a pouco, vão tornando a vida impossível”, acrescenta ela. É, portanto, crucial olhar para o modo como se lida com os próprios desejos.

Sacrifício e gênero
Quanto mais a pessoa se deixa escravizar pelas expectativas sociais e familiares, mais sujeita estará a neuroses perturbadoras. Por exemplo, quem pensa “não posso me casar, pois preciso cuidar dos meus pais” ou ‘tenho de continuar neste casamento infeliz, pois é o melhor para os meus filhos” não está se permitindo ser quem é. E aí a vida vira um sacrifício. “A angústia faz parte da condição humana, não é uma neurose. A neurose tem a ver com não se conformar com nossa incompletude”, aponta o psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira, professor de psicopatologia clínica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Nesse contexto, fica claro por que, em uma sociedade que reprime e cerceia o desejo feminino, são as mulheres as principais candidatas ao mal-estar. Não à toa, a histeria (uma forma de neurose) é historicamente associada a elas: na sociedade vitoriana, tradicional, patriarcal, regida por uma dupla moral, em que a mulher não tinha direito ao prazer sexual, enquanto o homem gozava de liberdade para realizar seus desejos e fantasias, é compreensível que a reivindicação do feminino, da sexualidade, explodisse pela via histérica. “Hoje, há estudos que mostram que você encontra mais mulheres tendo ataques semelhantes nas culturas onde existe maior repressão da sexualidade delas”, conta Pereira.



Por Liliane Prata

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