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domingo, 6 de agosto de 2017

Ex-turistas viram moradores de João Pessoa e contam sobre paixão pela cidade

Certa vez a cantora Chavela Vargas, amiga da pintora Frida Kahlo e grande nome da música da América Latina, foi questionada por um repórter em relação a como ela poderia ser mexicana se havia nascido na Costa Rica. 

A artista então soltou uma de suas célebres frases: “Los mexicanos nacemos donde nos da la rechingada gana”, dando a dimensão de como a sensação de pertencimento é mais forte e importante do que a oficialidade das letras datilografadas em certidões de nascimento. É esse tipo de sentimento que inspira e move a história de Marina Prado Santiago, uma paulistana nordestina que chegou ao mundo em São Paulo, mas desde os seus 21 anos decidiu 'nascer' em João Pessoa.


“Eu tenho um sentimento de pertencimento à região Nordeste, um afeto por João Pessoa muito grande, mais do que por São Paulo. Um vínculo muito grande. É uma coisa dentro de mim. Sinto-me mais completa quando me enxergo como nordestina”, contou.

Marina tem 30 anos e sua relação com João Pessoa começou cedo. Na infância e parte da adolescência, ela vinha até a cidade muitas vezes para se hospedar na casa dos padrinhos e curtir as férias. Os primeiros contatos, portanto, foram como turista. Mas desde esse tempo, a relação entre ela e a capital paraibana tomava contornos de amor, de pertencimento e de identidade. 

“Cheguei a morar em vários países. Desde os 14 anos eu moro fora. Mas quando virei comissária de bordo, pedi para que os voos em que eu trabalhasse fossem direcionados para João Pessoa. Eu sempre pensei: um dia vou morar aqui, já que gosto tanto. Mas é uma cidade com um ritmo diferente, tranquilo. Então pensei que quando eu tivesse nesse ritmo, quando me aposentasse, talvez, eu viria. Eu profetizei isso”, explicou.

Mas a convicção de se estabelecer em João Pessoa e a paixão definitiva pelo clima social da cidade chegaram a seu íntimo antes do esperado. Marina decidiu abrir um negócio na capital paraibana, que pudesse reunir a paixão pela cidade e pelo mundo. Resultado: um hostel, de nome 'Slow Hostel - Hospedagem Criativa', no bairro do Manaíra. Lá, onde também mora, Marina tenta mostrar aos turistas a João Pessoa dos seus olhos. 

“Já faz quase sete anos de residência fixa, criei um hostel aqui e acolho viajantes. E meu objetivo é encantá-los com a beleza da Paraíba, de João pessoa. Quero transmitir esse meu olhar, esse meu pertencimento. Eu quero que eles enxerguem João Pessoa com meus olhos porque sou mesmo apaixonada”, contou Marina.

Para Marina, João Pessoa agrega em sua rotina vários encantos, como paisagens e, sobretudo, pessoas. São elas os principais objetos de admiração da 'pessoense de São Paulo'. Artistas, moradores, amigos.... Todos responsáveis por alimentar e fortalecer a árvore de raízes fortes que Marina plantou em uma terra que se fez sua. 

“Sempre gostei das pessoas, do lugar. A Paraíba é uma parte integrada de um todo, que é o Nordeste. Adoro a culinária, a linguagem, as expressões artísticas. São, no meu ver, bem representativas. Adoro Adeildo Vieira, Gláucia Lima, as meninas do Sinta A Liga Crew. Amo ir para o Centro Histórico pela contracultura de lá. Tem o que é tradicional de nossa cultura junto com o que é moderno. Gosto muito do movimento dali. São pessoas que se somam para fazer uma mudança, mas sem perder a identidade, sem deixar ela se diluir”, finalizou Marina.

João Pessoa: fruto do amor

Segundo o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2010, João Pessoa tinha 53.752 de habitantes que não nasceram na capital da Paraíba. Cerca de 7% da população naquela época. É o caso, por exemplo, do economista e gerente de logística Marcos Salustino, de 45 anos, natural de Natal, no Rio Grande do Norte. 

Marcos, como muitos desses 7%, veio pela primeira vez para João Pessoa a passeio. Mas se apaixonou pela cidade logo de cara. Isso há mais de 20 anos. Alguns anos depois, Marcos descobriu que tinha familiares na cidade. E veio novamente, para conhecer essas pessoas.

“Na primeira vez que estive aqui, a cidade já me chamou atenção pela tranquilidade. Até que há exatos 20 anos, eu tive oportunidade de conhecer minha família biológica, que eu descobri nessa época. E aí foi um fim de semana que pude aproveitar mais a cidade. Então observei coisas diferentes de Natal, que me agradaram bastante”, contou Marcos.

A partir dessa segunda viagem à capital paraibana que lhe proporcionou conhecer de mais perto o município, começou a brotar uma vontade de um dia vir para morar. Tanto pela cidade, quanto pela chance de viver pela primeira vez rodeado de seus familiares “de sangue”. 

“Minha família foi um fator importante porque me acolheu muito bem. Mas o mais importante mesmo para mim é a qualidade de vida que João Pessoa proporciona. O aconchego das pessoas. As ruas pareciam sorrir. E aí conheci os Bancários, bairro onde morro até hoje. Tinha um ar diferente. Me encantei. Com a possibilidade de ir no mercado de manhã, de as pessoas frequentarem o bar até tarde da noite. Pessoas que se conhecem naquela redondeza. Então sempre imaginei que queria ficar ali e poder criar meus filhos num lugar como aquele”, analisou.

Mas para concretizar este sonho, faltava uma chance profissional interessante na cidade. O que nunca veio. No entanto, a vontade era tanta de ser pessoense, que Marcos teve que dar um jeito. Ele recebeu uma proposta para trabalhar e morar em Recife. Ficou apenas com a primeira parte do convite e aproveitou a oportunidade para fixar moradia na capital paraibana. 

“Há cerca de oito anos fui transferido para Recife e passei a ir todo fim de semana a João Pessoa, já que não me adaptei a cidade pernambucana. Eu brinco que o momento mais legal da semana é quando eu vou voltar para a Paraíba. Tempos depois eu casei, também com uma pessoa que não é de João Pessoa, mas que gostou demais dessa cidade”, disse o economista.

Faltava então só mais um sonho em conjunto com a capital da Paraíba. O de ter uma filha ou filho que pudesse viver também esse amor que ele tem por João Pessoa. Nasceu então, há três anos, do ventre da sua esposa cearense Welivânia Barbosa, a parte da cidade que Marcos mais ama. Sua filha, Ana Beatriz, pessoense 'da gema'. 

“Veio essa gravidez e a gente foi recebendo toda atenção de nossa família na cidade. Uma prima médica, inclusive, que acompanhou a gestação. Então foi natural o nascimento da minha filha ter sido aqui. Mas mesmo se eu estivesse morando em outro lugar, eu certamente optaria que ela nascesse em João Pessoa. Me orgulho demais disso. Sou potiguar, amo Natal, mas para mim foi muito significativo. Foi como uma volta às minha raízes, já que é a terra da minha mãe e da minha família. Eu amo e defendo muito a Paraíba. Tenho um coração dividido. Sou potiguar e paraibano. Aprendi muito a amar esse estado e esse povo”, revelou Marcos.



Por Pedro Alves

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