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28 junho 2021

Assassinato do Padre que completou 154 anos, e mudou para sempre a história de Conceição-PB; Por Silvio Darlan



A história de Conceição (PB) sempre esteve envolta de características marcantes, que ao longo de uma história centenária me despertou enorme curiosidade.


Ainda criança, ouvia tomado de assombro, as histórias que relatavam episódios de violência naquela cidade que para mim era tão pacata, tranquila e muitas vezes cheias de monotonia.


Em uma das minhas escapulidas da Escola José Leite, em um curto momento de distração da professora Das Neves Palitot, me dirigi a Praça Cônego Antônio Andrada (praça da matriz), e lá ouvi um grupo de pessoas conversando sobre  o homicídio de um padre, que supostamente teria acontecido na Igreja de Conceição.


No imagético por aquelas pessoas relatadas não explicava os nítidos motivos do bárbaro crime, apenas diziam que antes de morrer, o padre num tom de grande vingança, teria rogado uma praga sobre a cidade, dizendo que somente uma grande enchente iria “lavar” o seu sangue daquela igreja.


Na tolice de criança, por diversas vezes procurei encontrar essa suposta mancha de sangue, o que logicamente não encontrei, mas o que de fato ficou guardado foi a intensa curiosidade de saber mais, de ouvir aquelas senhoras do Apostolado da Oração que antes das missas me contavam um pouco de um passado não tão distante.


Anos mais tarde, descubro através de pesquisas sobre a nossa cidade, que de fato esse crime aconteceu e marcou uma geração, pelos requintes de crueldade e  motivação fútil.


O fatídico episódio aconteceu no dia 17 de dezembro de 1867, nesta época a pequena vila de Conceição era assistida espiritualmente pela paróquia do Termo de Misericórdia, hoje Itaporanga. As características de Conceição nesta época são as mais rústicas que a nossa imaginação pode produzir, uma pequena vila ao redor de uma capela, ausência de eletricidade e estradas de barro que deixavam Conceição ainda mais longe dos centros comerciais e urbanos.


Os relatos do inquérito policial foram publicados em um jornal na capital do estado que se chamava “O PUBLICADOR”  de propriedade de José Rodrigues da Costa, e naquele ano narrou para os seus leitores o crime que marcou para sempre o imaginário popular. 


Na próxima publicação no Portal Vale do Piancó Noticias e Acervo Conceição do Piancó, irei  apresentar  pela primeira vez o interrogatório feito pelas autoridades policias da época, com as motivações relatadas pelo próprio autor do crime.


Quem foi o Padre Formiga? Quais os motivos do cruel homicídio?


Na publicação mencionada no inicio desta matéria, alguns aspectos que foram reproduzidos secularmente para gerações, e que diante de tamanha curiosidade em conhecer a história e o passado muitas vezes sanguinário da minha cidade, me debrucei em algumas pesquisas, o que ouvia quase sempre  dizia respeito a especulações, nada documental.

Foram vários anos de pesquisa, na tentativa  de encontrar algum registro concreto sobre esse fatídico episódio, o que me deixava mais intrigado era a forma como era contado, sempre envolta de um místico e até certo ponto de medo.

Por inúmeras vezes parava durante a noite em frente a Igreja Matriz e fica deslumbrado com tantos relatos de violência, e álibi de vingança. 

Certa dia, ao chegar no Posto de Valmir Sabino, sou surpreendido através de um contato telefônico de um rapaz natural de Itaporanga, que se chama Guthierri Soares, informando que tinha informações de fontes fidedignas sobre esse episódio, de pronto verifiquei e compreendi que as informações que estava recebendo mudava totalmente a perspectiva histórica que por muitos anos era conhecida por Conceição.

A única fonte que registrava esse sinistro, foi feito pelo Padre Manoel Otaviano, em um livro publicado originalmente da década de 1950, cumpre destacar que o Pe. Manoel, viveu e exerceu seu ministério sacerdotal muitos anos após o acontecido, e que na época Conceição pertencia administrativamente a cidade de Misericórdia,hoje chamada de Itaporanga.

Estamos falando de uma Conceição extremamente primitiva, um pequeno vilarejo que se organizava para iniciar um processo de emancipação política, e que é surpreendido com um crime sem precedentes que abalou  toda a província.  As relações intrínsecas entre Igreja e Estado mostravam um efetivo poder que a Igreja Católica  detinha, um crime desta natureza, contra um membro do clero era algo estarrecedor.  

Os dados utilizados para trazer ao conhecimento público foram extraídos do periódico que circulava na capital do estado, e se chamava “O PUBLICADOR”(segue em anexo) de propriedade de José Rodrigues da Costa,  e que diariamente na chamada “Parte Oficial” eram publicados os expedientes do governo da província, bem como outros despachos, portanto uma fonte oficial, que tornou público o inquérito instaurado na época para investigar e inquirir o acusado, que no curso da oitiva confessou e explicou os motivos que levou ao homicídio de Joaquim Jurcelino Veriato Formiga, ou simplesmente Padre Formiga, coadjutor da freguesia de Nossa Senhora da Conceição, termo de Misericórdia. 

O CRIME

O Distrito de Conceição, termo de Misericórdia, aos 17 dias do mês de Dezembro de 1867, a pequena vila é surpreendido com o homicídio do Padre Formiga.

Ao contrário do que foi repassado por gerações, o crime não aconteceu na Igreja, vale lembrar que a construção da atual Igreja Nossa Senhora da Conceição foi iniciada em 1938, e só foi concluída em 1949.

 O crime ocorreu em uma residência  nas adjacências da Igreja,  e como consta nos registros pertencia ao Sr. Galdino José de Sant´Anna.

O acusado, que ao ser inquirido pelo Juiz Municipal suplente Dr. José Severino da Silva, confessou e relatou os motivos do crime, foram vinte e oito punhaladas, caindo por terra o Padre Joaquim Jurcelino Veriato Formiga e iniciando no imaginário popular lendas e mitos.


O RÉU CONFESSO

O assassino foi preso no curso de uma tentativa de fuga, distante sete léguas da sede do distrito de Conceição.

Sebastião Gomes de Sousa, vulgo “Bembem”, era natural do Estado de Pernambuco, da comarca de Pajeú de Flores, contava na época trinta e um para trinta e dois anos de idade, ele era casado, e no inquérito foi apresentado  como filho do finado José Gomes dos Réis, também de Flores(PE)e trabalhava como agricultor.

As perguntas utilizadas pelo juiz da época foram bastante diretas, no relato não indica a presença de advogado constituído para a defesa.

Ao ser questionado se conhecia o Padre Formiga e quais os motivos do crime ele assim respondeu, dizendo que conhecia  ele de vista e que dele não gostava, ao ser questionado sobre quanto tempo ele conhecia, ele afirmou que conhecia de um ano pra cá.

Insatisfeito com as respostas, o juiz  diretamente indaga qual motivo dele não gostar  do reverendo, ele pontua dizendo que tinha receio do padre ferir a sua “honra”.

Neste ponto, os relatos  que ouvi com pessoas de mais idade bate com a versão oficial, a especulação que fora levantada dizia que o Padre Formiga teria uma relação próxima com a esposa do réu, e que essa aproximação estava colocando em dúvidas a fidelidade da sua esposa.

Para compreender o “crime de honra”  é necessário entender o contexto histórico que a sociedade estava inserida, advinda de uma relação patriarcal, submissão jurídica da mulher para com o esposo e ainda mais um membro do clero que adota uma vida de castidade.

Várias foram as nuances que envolveram esse episódio que mais parece um roteiro cinematográfico vivido naquele século.

No relado do próprio réu, ele não deixa claro a incidência de qualquer fato que pudesse atribuir ao Padre, afirmando apenas suspeitar que Formiga pudesse  faltar com a honra dele, da família e de todo o povo, uma clara referência a vida do religioso.

O crime aconteceu nas primeiras horas do dia, o “Bembem” como era popularmente conhecido, atingiu o padre com vinte e oito punhaladas, além do punhal ele conduzia uma pistola de calibre não identificado, toda a prática criminosa foi realizado sem ajuda de terceiros, conforme apontou.

No momento o Padre estava deitando, e já estava acordado quando recebeu  os primeiros golpes, ele ainda teria lançado mão do punhal, mas o réu quebrou o punhal nas mãos do padre e  com a ponta matou, deixando o ambiente totalmente lavado de sangue.

Ao deixar o local do crime, ele foi ate a casa onde residia, e lá o Sr. André Pinto Ramalho  pediu para que ele se entregasse, não atendendo o apelo preparou o cavalo e fugiu  em direção ao Pernambuco, sendo capturado pelo Sr. Miguel Pereira. Quando interrogado sobre a motivação, ele sempre respondia sobre honra.

Não concebendo a frieza empregada para o homicídio, o juiz questiona se ele estava em juízo perfeito, se tinha  noção do que estava fazendo, ele friamente responde que já estava planejando e que ainda não se arrependera.

O corpo do Padre Formiga foi sepultado na antiga Igreja de Itaporanga, deixando a cidade de Conceição marcada para sempre, um crime que abalou a província e durante anos despertou a curiosidade e o imaginário popular.

Esse e outros fatídicos, você pode conhecer através do perfil Acervo Conceição do Piancó, que está aberto a consulta pública no Instagram e no facebook, estou tentando despertar nas autoridades públicas o desejo que catalogar e criar um espaço púbico para a preservação da memória histórica e cultural da nossa cidade.

Sobre a fala atribuída ao padre antes de morrer,  sobre a mancha do seu sangue e como ela seria “lavada” isso eu não posso afirmar,  o que posso dizer de certo é que essa cidade ainda guarda muitos segredos que talvez o tempo, ou algum curioso como Silvio Darlan possa um dia revelar.


 

Por Silvio Darlan

Um comentário:

CésarAlmeida disse...

Ótimo relato.
A desconfiança do réu confesso pode se dever ao fato de que o Padre Joaquim Juscelino Formiga, ao morrer, deixou 8 filhos, conforme registros bibliográficos. Esse comportamento de um sacerdote, que hoje consideraríamos escandaloso, não era incomum a época.