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12 junho 2021

A receita para a superação do subdesenvolvimento e ganhar uma Libertadores com equilíbrio fiscal; Por Erik Figueredo



Estádio Monumental de Lima, Peru, 23 de novembro de 2019, 46 minutos do segundo tempo. Após um lançamento do meio do campo, o zagueiro Javier Pinola falha e a bola sobra na perna esquerda de Gabriel Barbosa. O segundo gol do atacante sela o destino da Copa Libertadores da América diante de quase 60 mil espectadores. Após 38 anos, o Flamengo conquista o campeonato mais prestigiado da América do Sul. Em meio à euforia, alguns torcedores erguem o antigo presidente do Clube, Eduardo Bandeira de Mello, reconhecendo que a jogada final da partida não iniciou no lançamento de Diego Ribas e sim em 01 de janeiro de 2013. 

Em seis anos (2013-2018), o presidente Bandeira de Mello e sua equipe implantaram uma das maiores reestruturações fiscais registradas no futebol brasileiro. Para se ter uma ideia, o clube reduziu a sua dívida que passava de R$ 750 milhões em 2012 para R$ 360 milhões em 2017. Mesmo diante de um desempenho modesto no futebol, o Flamengo seguiu sua jornada de aumento de receitas, redução das despesas e recuperação da credibilidade no mercado. Em 2015 o Conselho Deliberativo do clube aprovou uma Lei de Responsabilidade Fiscal, com a inclusão de emendas ao Estatuto prevendo a punição dos dirigentes por eventuais descumprimentos às normas de equilíbrio fiscal e estipulando práticas para garantir transparência de gestão durante todo o exercício, inclusive com a contratação de empresas de auditoria externas.

Não obstante os sinais do sucesso da estratégia, sintetizados nos massivos investimentos em infraestrutura possibilitados pelo período inicial de austeridade e; pelo aumento de mais de 450% nas receitas, certamente influenciado pelo ganho de credibilidade e pelo poder de mercado (incrivelmente) inexplorado, ainda faltava o passo final: o resultado esportivo. Para tanto, iniciou-se o passo dois da estratégia de sucesso: o choque de produtividade. Essa etapa é iniciada em junho de 2019 quando o presidente Rodolfo Landim anuncia a contratação do português Jorge Jesus como o novo técnico da equipe rubro-negra. 

Assim como um processo de abertura comercial padrão, a chegada do novo “produto”, cheio de inovação e tecnologia causou um verdadeiro furor no mercado interno. Com qualidade inferior, os similares brasileiros bradaram por proteção ao mercado. Argumentos protecionistas e até xenófobos surgiram de todos os lados. Indiferente ao que o cercava, Jesus aplicava novos métodos de treinamento, táticos e de recuperação de atletas. Jesus promoveu um verdadeiro choque de produtividade no mercado interno. O consequente domínio sobre os demais clubes deixou uma lição clara: protecionismo e reserva de mercado são nocivos, inclusive no futebol. 

Infelizmente esse choque não foi permanente. Porém, a lição deixada pelo Flamengo pode ser usada como um case de sucesso. O brasileiro, tão apaixonado por futebol, pode até não se interessar por discussões econômicas. Pode até não entender o complexo mecanismo de superação do subdesenvolvimento de um país continental. Contudo, é difícil negar que a combinação do equilíbrio fiscal com o aumento da produtividade é capaz de conduzir um clube ou um país a “oto patamá”. 


Por Erik Figueiredo, Professor de economia da UFPB

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